sábado, 26 de fevereiro de 2022
Drive my car, de Murakami
Terminei de ler o conto Drive my car, de Haruki Murakami e que acabou de virar filme oscarizável.
Está no livro Homens sem mulheres.
Depois de assistir à peça O desaparecimento do elefante fui lá e comprei vários livros dele.
Li Sono, vários contos e um romance do qual me esqueci o título.
A peça me enganou.
Acho Murakami chato. Falta-lhe a intensidade dramática dos latino-americanos para que eu o queira bem. Mas no Brasil, ele se tornou popular, aclimatou-se bem, é amado e saboreado como sushi com cream-cheese ou, como lhe acusa a milenar critica japonesa: americanizado demais para ser tragável.
Para os jovens-japas, soube que Murakami é pop, e o pop é tudo.
Tudo me parece linear, sem arroubo, com personagens à primeira vista interessantes, mas que depois se revelam sorumbáticos, sombras pálidas, tofu, água de arroz. Me parecem sempre reativos, algo anteriormente ocorreu, os impactou e o que se narra é o efeito disso na vida dos personagens. Aquela coisa da pedra lançada no lago. Murakami se concentra nas ondulações. Mas para mim, ele só consegue ficar na superfície.
Em Drive my car (o conto), um ator de prestígio (mas nada popular), provoca um acidente de carro após um pilequinho. Diagnosticado com um ponto cego no olho (princípio de um glaucoma), tem que admitir (por dever contratual) um chofér para levá-lo ao teatro onde encena Tio Vania. Estranha, pouco atraente e nascida no interior, assume o posto uma moça de 20 anos (idade que teria a filha do ator, falecida ainda na maternidade). Discreta, taciturna e ótima motorista, cai nas graças do sujeito a quem só desagrada o fato de ser fumante.
Nas andanças por Tóquio, ambos estabelecem uma relação inicialmente distante, mas pontuada de conversas cada vez mais pessoais. O ator cinquentão é recém-viúvo de uma bela e famosa atriz que morreu de câncer, logo somos informados de que ela o traiu diversas vezes com anódinos companheiros de cena. Ele sempre soube, mas nunca a confrontou.
O ator estabelece amizade com o último amante da esposa para tentar desvendar o porquê da infidelidade, já que ele e a esposa tinham intimidade, companheirismo e uma vida sexual ativa. Isso tudo é confidenciado à motorista, que em contrapartida, conta-lhe do abandono do pai aos 8, do desprezo da mãe (que atribuía à feiúra da filha a partida do marido); mãe que, para alívio confesso da moça, morreu bêbada num acidente de trânsito.
Na conversa final, a moça revela ter lido Tio Vania de Tchecov para ter o sentido completo das falas que o ator ensaiava com fita cassete no carro. Ele confessa ter cogitado vingar-se do rival, embebedava-o nos bares para achar um "ponto cego" em sua biografia (para desgraçar sua vida). Mas desistiu, pois todo ciúmes (e mesmo o despeito de ser traído com um sujeito medíocre, divorciado e cuja ambição era ter a guarda do filho), deixou de fazer sentido. A motorista sugere que traí-lo com medíocres talvez fosse uma forma de distração da esposa (pelo trauma da perda do bebê?), mas que saber o que pensava sua mulher era impossivel.
O conto encerra com as dores diluídas e a cumplicidade quase paternal-filial entre ambos.
É essa linha narrativa de Murakami, quase sempre fundamentada em relações desvitalizadas, anticlimáticas (para não dizer "broxantes") e o que me faz ter preguiça do autor. Além da falta de "punch" (força/pegada/energia/tesão), há essa escrita paupérrima estilisticamente, algo que pode até ter refinamento em Japonês, mas que se perde na tradução.
Então de repente me vem à mente que essa contenção dramática seja uma chave do espírito nipônico, uma forma de ver o mundo, que talvez seja interessante eu acessar, como aquela praticidade narrativa dos escritos americanos, a exuberância dos latinos, a engenhosidade verbal dos franceses e entremezzos filosofantes/humanistas dos russos.
terça-feira, 30 de julho de 2019
Encerramento da turma manhã
Encerramento do curso de férias. Turmã manhã. Direito, Literatura e artes narrativas. 22 a 26 de agosto de 2019.
segunda-feira, 22 de julho de 2019
Salve Regina
Salve, Rainha,
Mãe de misericórdia,
vida, doçura e esperança nossa,
salve!
A vós bradamos,
os degredados filhos de Eva;
a vós suspiramos,
gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Eia, pois advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos
a nós volvei; e depois deste desterro
nos mostrai Jesus, bendito
fruto do vosso ventre,
ó clemente,
ó piedosa,
ó doce sempre
Virgem Maria.
Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos
das promessas de Cristo.
Salve Regina
Salve, Regina,
Mater misericordiae,
vita, dulcédo et spes nostra,
salve.
Ad te clamamus, éxsules filii Evae.
Ad te suspirámus geméntes et flentes
in hac lacrimárum valle.
Eia ergo, advocáta nostra,
illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte.
Et Jesum benedíctum fructum
Ventris tui, nobis,
post hoc exsílium, osténde.
O clemens,
o pia,
o dulcis
Virgo María!
Ora pro nobis, sancta
Dei Génitrix.
Ut digni efficiámur
promissiónibus Christi.
Código de Hamurabi
É chamado Código de Hamurabi uma compilação de 282 leis da antiga Babilônia (atual Iraque), composto por volta de 1772 a.C. Hamurabi é o sexto rei da Babilônia, responsável por decretar o código conhecido com seu nome, que sobreviveu até os dias de hoje em cópias parcialmente preservadas, sendo uma na forma de uma grande estela (monolito) de tamanho de um humano médio, além de vários tabletes menores de barro.
Características
Estela contendo as inscrições do Código de Hamurabi. Foto: Sailko [GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html), CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/) or CC-BY-2.5 (http://creativecommons.org/licenses/by/2.5)], via Wikimedia Commons
Estela contendo as inscrições do Código de Hamurabi. Foto: Sailko [GFDL, CC-BY-SA-3.0 or CC-BY-2.5], via Wikimedia Commons
O Código de Hamurabi é visto como a mais fiel origem do Direito. É a legislação mais antiga de que se tem conhecimento, e o seu trecho mais conhecido é a chamada lei de talião. Ele é pequeno, tendo em seu original três mil e seiscentas linhas, sendo essas linhas ordenadas em duzentos e oitenta e dois artigos, sendo que de alguns deles não há conhecimento completo de sua redação.
O original do Código de Hamurabi foi escrito/gravado em um bloco, e parte desses artigos foram apagados quando o bloco foi levado para Susa, confiscado depois de uma guerra. Com isso, alguns artigos ficaram com a sua compreensão comprometida. Alguns dos artigos apagados são conhecidos pela existência de cópias. O bloco original em que foi escrito o Código encontra-se atualmente no museu do Louvre, em Paris.
Na verdade, como o Código de Hamurabi é a única legislação daquele povo, ele não deveria receber tal nomenclatura, tendo em vista que não apresenta-se da maneira de um código, noção que foi concebida após o Código Civil Napoleônico. Vale lembrar que o este código é uma legislação que está composta por vários fragmentos, sendo alguns civis, outros penais, alguns referentes ao direito do trabalho, etc.
Sociedade babilônica
Importante lembrar que a sociedade que produziu o Código de Hamurabi era uma sociedade estratificada. As disposições determinam qual comportamento é pertinente para cada classe.
A sociedade babilônica tinha por base a desigualdade. A primeira classe, e mais numerosa era a dos awilu, os cidadãos, proprietários, camponeses, artesãos e comerciantes.
Em posição intermediária estavam os mushkenu (palavra, através do árabe, responsável pelo vocábulo português “mesquinho”); são os semi-livres, entre livres e escravos. Era formada por antigos escravos, homens livres desclassificados (plebe), muitas vezes estrangeiros.
Abaixo destes estava a classe dos escravos, wardu, resultante, sobretudo, da guerra, mas também determinada pelo nascimento, em virtude de sua hereditariedade.
As disposições presentes no Código contemplam todas as classes, mas podemos observar que a legislação é feita com total parcialidade em favor da classe superior, os “awilum”. A maior parte dos artigos dão a entender que somente eles possuem direitos, pois frequentemente lemos a palavra awilum, e não qualquer expressão mais genérica que demonstraria imparcialidade.
No parágrafo 271 temos:
“Se um awilum alugou animais, um carro e seu condutor, dará três parsiktum de grão por dia.”
No 272 está escrito:
“Se um awilum alugou só o carro dará 4 uitum de grão por dia.”
Isso demonstra claramente que o código não considera a todos como iguais, pois se assim fosse qual a necessidade de se especificar qual a classe? Os enunciados dos artigos certamente trariam a palavra cidadão ou equivalente, evitando assim, a distinção de classe social. Entretanto, assim não é, pois as leis são específicas para cada classe social. Assim, cada classe tem o seu nome especificado no código.
A Mesopotâmia e Hamurabi
Hamurabi é o responsável pela fundação do primeiro império babilônico, conseguindo com isso, unificar a região. Para sua edificação foi decisiva ainda a invasão dos amoritas, que derrubaram os acádios, a força predominante na área.
Esta parte do planeta está delimitada por dois rios importantíssimos, que são o Tigre e o Eufrates, vindo daí o nome Mesopotâmia, derivado do grego, e que significa “terra entre rios”. É por isso mesmo que encontramos no código determinados artigos que tratam sobre a irrigação e regulamentam a profissão de barqueiro. Isso já deixa evidente a importância da água, não somente como a necessidade física, mas para finalidades secundárias, mas não menos importantes. Nos parágrafos 53, 55 e 56 temos exemplos de disposições que demonstram a preocupação com a racional utilização da água:
Se alguém é preguiçoso em ter em boa ordem o próprio dique e não o tem em ordem, e em conseqüência nele produziu-se uma fenda e os campos da aldeia foram inundados pela água, aquele em cujo dique produziu-se a abertura deverá ressarcir o grão que fez perder
Se alguém abre seu reservatório de água para irriga, mas é negligente, e a água inunda o campo do seu vizinho, deverá ressarcir o grão conforme o produzido pelo vizinho.
Se alguém deixa passar a água, e a água inundar o cultivo do vizinho, deverá indenizá-lo pagando para cada dez ‘gan’ (medida de superfície) dez ‘gur’ (medida de volume) de grão.
Nesses parágrafos vemos a preocupação com a questão da irrigação, e delitos previstos em caso de negligência no uso da água, prevendo penas para os infratores. A presença de três parágrafos para mostrar o que deveria ser feito quando ocorresse algum problema com a irrigação de algum campo demonstra claramente a importância acentuada da água, considerando que são apenas duzentos e oitenta e dois artigos. Afinal, a atividade econômica desenvolvia-se toda praticamente em torno da exploração da água.
Divisão do Código de Hamurabi
Como era de se imaginar, o Código de Hamurabi não apresenta o mesmo formato das leis contemporâneas. A conformação que prevalece nos dias atuais surgiu apenas com o Código Civil Napoleônico.
As lacunas existentes no código são evidentes para os especialistas. Exemplo disso é o fato de somente as classes profissionais especiais terem as suas atuações regulamentadas. Porque somente algumas classes eram contempladas? Mesmo na Antiguidade já havia uma diversidade considerável de profissões.
De qualquer modo, estudiosos como E. Bergmann procuraram estruturar de forma racional a estrutura do código:
1-Leis punitivas de prováveis delitos praticados durante um processo judicial (parágrafos 1 a 5)
2-Leis regulatórias do direito patrimonial (parágrafos 6 a 126)
3-Leis regulatórias do direito de família e heranças (parágrafos 127 a 195)
04-Leis destinadas a punir lesões corporais (parágrafos 196 a 214)
5-Leis que regulam os direitos e obrigações de classes especiais como: a) Médicos (§§215 – 223) b) Veterinários (§§ 224 – 225) c) Barbeiros (§§ 226 – 227) d) Pedreiros (§§ 228 - 233) e) Barqueiros (§§ 234 – 240) (parágrafos 215 a 240)
6-Leis regulatórias de preços e salários (parágrafos 241 – 277)
7-Leis adicionais regulatórias da posse de escravos (parágrafos 278 – 282)
8-Ao contrário da classificação sugerida por Bergman, Hugo Winker faz a divisão em quatorze partes:
9-Encantamentos, juízos de Deus, falso testemunho, prevaricação dos juízes. (parágrafos 1 a 5)
Crime de furto e rapina, reivindicação de móveis. (parágrafos 6 a 25)
Direitos e deveres dos oficiais, dos gregários em geral.(parágrafos 26 a 41)
Locação em regime geral dos fundos rústicos, mútuos, locação de casas, doações em pagamento. (parágrafos 42 a 65)
Relação entre comerciantes e comissionários. (parágrafos 100 a 107)
Regulamento das tabernas (taberneiras prepostas, polícia, penas e tarifas). (parágrafos 108 a 111)
Obrigações (contratos de transportes, mútuos), processo de execução e servidão por dívidas. (parágrafos 112 a 119)
Contratos de depósitos (parágrafos 120 a 126)
Injúria e difamação (parágrafo 127)
Matrimônio e família, crimes contra a ordem da família, contribuições e doações nupciais, sucessão. (parágrafos 128 a 184)
adoção, ofensa aos genitores. Substituição do recém-nascidos. (parágrafos 185 a 195)
Crimes e penas (lesões corporais) talião, indenização e composição. (parágrafos 196 a 214)
Médicos e veterinários, arquitetos e barqueiros (mercês, honorários e responsabilidade), choque de navios. (parágrafos 215 a 240)
Sequestro, locações de animais, trabalhos nos campos, pastores, operários. Danos, furtos de utensílios para água, escravo (ação redibitória, responsabilidade por evicção, disciplina). (parágrafos 241 a 282)
Este detalhamento nada mais é do que a ampliação do significado do primeiro. Entretanto, podemos aqui observar que o Código de Hamurabi não é somente morte e disposições penais como muitos o conhecem. Tal sistematização serve ainda para demonstrar que esta é uma legislação de grande valor e que traz alguns princípios que, com certeza, foram adotados por legislações posteriores no mundo do direito.
Lei de talião
A lei (ou pena) de talião é o ponto principal e fundamental para o Código de Hamurabi.
A despeito do que muitos pensam, talião não é um nome próprio. O termo vem do latim talionis, que significa “como tal”, “idêntico”. Daí temos a pena que se baseia na justa reciprocidade do crime e da pena, frequentemente simbolizada pela expressão “olho por olho, dente por dente”.
Ela se faz presente na maior parte dos duzentos e oitenta e dois artigos do código. Muitos delitos acabam tendo com sanção punitiva o talião, ou às vezes a pena de morte. Apesar de parecer chocante a condenação à pena de morte, esta era uma condenação bastante usual, pelo menos na legislação.
Finalidade
Com uma melhor análise do conteúdo do código, fica claro que o objetivo (ao menos aparentemente) dessa legislação era trazer a justiça, mesmo que a maioria dos seus duzentos e oitenta e dois artigos sejam taliônicos e não correspondam às ideias mais modernas de justiça científica.
Um bom ponto que talvez ilustre perfeitamente a finalidade da composição de tal legislação é o prólogo, no qual está escrito o seguinte: “(...) por esse tempo Anu e Bel me chamaram, a mim Hamurabi, o excelso príncipe, o adorador dos deuses, para implantar justiça na terra, para destruir os maus e o mal, para prevenir a opressão do fraco pelo forte, para iluminar o mundo e propiciar o bem-estar do povo (...)”
Bibliografia:
KERSTEN, Vinicius Mendez. O Código de Hamurabi através de uma visão humanitária. Disponível em: < http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=4113 >
Código de Hamurabi. Disponível em < http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/hamurabi.htm >
Arquivado em: Direito, História
Salomão julga a causa de duas mulheres
16 Então, vieram duas mulheres prostitutas ao rei e se puseram perante ele. 17 E disse-lhe uma das mulheres: Ah! Senhor meu, eu e esta mulher moramos numa casa; e tive um filho, morando com ela naquela casa. 18 E sucedeu que, ao terceiro dia depois do meu parto, também esta mulher teve um filho; estávamos juntas, estranho nenhum estava conosco na casa, senão nós ambas naquela casa. 19 E de noite morreu o filho desta mulher, porquanto se deitara sobre ele. 20 E levantou-se à meia-noite, e me tirou a meu filho do meu lado, dormindo a tua serva, e o deitou no seu seio, e a seu filho morto deitou no meu seio. 21 E, levantando-me eu pela manhã, para dar de mamar a meu filho, eis que estava morto; mas, atentando pela manhã para ele, eis que não era o filho que eu havia tido. 22 Então, disse a outra mulher: Não, mas o vivo é meu filho, e teu filho, o morto. Porém esta disse: Não, por certo, o morto é teu filho, e meu filho, o vivo. Assim falaram perante o rei.
23 Então, disse o rei: Esta diz: Este que vive é meu filho, e teu filho, o morto; e esta outra diz: Não, por certo; o morto é teu filho, e meu filho, o vivo. 24 Disse mais o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram uma espada diante do rei. 25 E disse o rei: Dividi em duas partes o menino vivo: e dai metade a uma e metade a outra. 26 Mas a mulher cujo filho era o vivo falou ao rei (porque o seu coração se lhe enterneceu por seu filho) e disse: Ah! Senhor meu, dai-lhe o menino vivo e por modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o antes. 27 Então, respondeu o rei e disse: Dai a esta o menino vivo e de maneira nenhuma o mateis, porque esta é sua mãe. 28 E todo o Israel ouviu a sentença que dera o rei e temeu ao rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça.
1 Reis 3:16-28 Almeida Revista e Corrigida 2009 (ARC)
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
Provérbio latinos em torno do Direito, da Lei e da Justiça
Dura lex, sed lex
A lei é dura mas é a lei.
Testis unus, testis nullus
Uma testemunha, nenhuma testemunha
Ubi societas, ibi jus
Onde está a sociedade, esta o direito
Qui est sine peccato, primum in illa lapidem mittat
Quem se sentir sem culpa, atire a primeira pedra
Qui furtim accipit, palam exsolvit
Quem o alheio veste, na praça o despe
Qui gladio ferit, gladio perit
Quem com ferro fere, com ferro será ferido
Quae sunt Caesaris, Caesari
A César o que é de César
Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi
Vão as leis onde querem os reis
Judex ille sapit qui darde censet et audit
O bom juiz ouve o que cada um diz
Judex in causa propria nemo esse potest
Ninguém pode ser juiz em causa própria
Judices nascuntur, Advocaci fiunt
Juízes nascem, Advogados fazem-se
Jus rationis abest, ubi saeva potentia regnat
Onde há força, o direito se perde
A inclusione unius ad exclusionem alterius
Da inclusão de um à exclusão de outro
A magnis maxima
De grandes causas, grandes efeitos
Leges bonae malis ex moribus procreantur
Dos maus costumes nascem as boas leis
Ab alio spectes alteri quod feceris
Quem faz o mal, espere outro tal
Ab auditione mala non timebit
O homem honrado não teme murmúrios
Abbati, medico, potronoque intima pande
Ao padre, médico e advogado, falar a verdade
Abditae causae
causa oculta, motivo desconhecido
Absens absentis curator esse nequit
Ausente não pode ser curador de ausente
Absens heres non erit
Nao há ausentes sem culpa nem presentes sem desculpa
Accipe quod tuum, alterique da suum
Aceita o que é teu e dá o alheio a seu dono
Adhuc sub judice lis est
Não julgar apressado, esperar o fim
Aequitas praeferitur rigore
É preferível a equidade ao rigor
Aliquis non debet esse judex in propria causa
Não se deve ser juiz de causa própria
Allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est
Alegação sem prova é como sino sem badalo
Alteri ne facias quod tibi fieri non vis
Não faças aos outros o que não queres que te façam
Ante mortem ne laudes hominem quemquam
Antes da morte, não louves a ninguém
Bonis nocet qui malis parcit
Perdoar ao mau é dizer-lhe que o seja
Consensus tollit errorem
O erro repetido passa por verdade
Donec eris felix, multos numerabis amicos
Preso e cativo não tem amigo
Dormientibus non sucurrit jus
A lei não protege os que dormem
Exempla movent magis quam verba
Os exemplos movem mais do que as palavras
Ex ore tuo te judico
Julgo-te pelas tuas próprias palavras
Fallacia alia aliam trudit
Uma mentira acarreta outra
Fata viam inveniunt
O que tem de ser tem muita força
Iustitia et misericordia coambulant
A justiça e a misericórdia andam juntas.
In medio virtus
No meio é que está a virtude
Non omnis quod licet honestum est
Nem tudo que é lícito é honesto
Oculum pro oculo, dentem pro dente
Olho por olho, dente por dente
Quis custodiet ipsos custodes
Quem guardará os guardiões?
Quem vigia os vigilantes?
Qui tacet, consentire videtur
Quem cala, consente
Quum finis est licitus etiam media sunt licita
O fim justifica os meios
Res ipsa loquitur
As coisas falam por si mesmas
(a força do prejuízo causado que serve como prova
mais do que o suficiente pela negligência cometida)
Silent inter arma leges
Se as armas falam, as leis se calam
Veritas vos liberabit
A verdade vos liberta.
Virtus in medium est
A virtude está no meio
(Nem tanto ao mar, nem tanto à terra)
Homo homini lupus
O homem é lobo do próprio homem (Hobbes)
Homo sum, nihil humani a me alienum puto
Sou homem: nada do que é humano reputo alheio a mim.
In mutiloquio non deerit stultitia
Muito falar, muito errar
In nocte consilium
A noite leva conselho
Mendaci ni verum quidem dicenti creditur
Na boca do mentiroso o certo se faz duvidoso
Quid rides me flente?
novum tibi crede futurum luctum,
forte meus cum mihi priscus erit
[Quando os meus males forem velhos,
os de alguém serão novos]
A JUSTIÇA nos Provérbios
"A justiça tarda, mas não falha"
"A justiça é cega."
"A justiça é cega."
"A justiça de Deus é infalível."
"A justiça e a razão vencem tudo."
"A justiça tarda, mas não falha."
"Justiça extrema, extrema injustiça."
"Justiça na sua porta, não há quem queira."
"A justiça branda faz o povo rebelde."
"Da justiça o pobre só conhece os castigos."
"Faça-se justiça, embora desabem os céus."
[Fiat justitia et ruat caelum]
"Quem aplica a justiça, deve temê-la."
"A justiça é o freio da humanidade."
A justiça e a misericórdia andam juntas.
[Iustitia et misericordia coambulant]
A justiça e a misericórdia andam juntas.
[Iustitia et misericordia coambulant]
"Onde a justiça impera não são precisas armas."
"A justiça sem a força é impotente; o poder sem a justiça é tirania."
"Os homens desejam para si a justiça que recompensa e para os outros, a justiça que castiga."
"Quatro coisas desterram a justiça: o amor, o ódio, o medo e a ignorância."
"A justiça não conhece pai nem mãe, mas a verdade."
"A justiça a todos agrada, mas ninguém a quer em casa."
"A justiça tem sete mangas, e, em cada manga, sete manhas."
"A justiça é cega, mas sente cheiro de pobre."
"Mal por mal, antes justiça que misericórdia."
"Justiça, mas não na minha casa."
"O braço da justiça é muito comprido."
"Justiça não é lei, mas invenção."
"A justiça divina tarda, mas não falha."
"A justiça começa por casa."
"A justiça não dorme."
"A justiça não há-de ser patrimônio do juiz"
"A paciência é a chave da justiça"
"Entre dois litigantes, aquele que vence fica em camisa, o que perde fica nu"
"A justiça é coxa mas sempre chega"
"Sê justo e serás forte"
"A justiça tem sete mangas e cada manga sete manhas"
"Escrivão, ladrão"
"A justiça, como as mãos do cirurgião, com quanta mais levidão cura, melhor é"
"A justiça de Deus é como a chuva, que falta nos meses, mas não falta no ano"
"A justiça de Deus tarda, mas não falha”
"A justiça é criminosa, quando cruel"
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Documentários sobre casos polêmicos envolvendo Justiça e Direiro
Na Captura dos Friedmans [2003 ‧ Mistério/Filme biográfico ‧ 1h 47m].
Na noite de Ação de Graças de 1987, Arnold Friedman, um amável professor de informática, e seu filho caçula Jesse, foram presos acusados de terem abusado sexualmente dos seus alunos. Este documentário multipremiado expõe a história desta família judia de classe média, da costa leste dos Estados Unidos.
domingo, 7 de janeiro de 2018
segunda-feira, 24 de julho de 2017
Uma dinâmica sobre culpabilidade
Uma jovem mulher casada, desprezada pelo marido sempre muito ocupado com a trabalho, deixa se seduzir e vai passar a noite na casa do amante, que mora no outro lado do rio. Para voltar a sua casa, na madrugada seguinte, antes do marido regressar de viagem, ela tem de atravessar novamente a ponte. Mas um louco violento lhe impede a passagem. Tenta então encontrar um barqueiro que a passasse. Este exige pagamento imediato. Ela não tem dinheiro, explica-lhe a situação e lhe suplica. No entanto, ele se recusa a trabalhar sem ser pago adiantadamente. Vai ter com o seu amante e lhe pede dinheiro. Este recusa, sem explicações. Vai procurar então um amigo que nos arredores e que há tempos a amou, amor ao qual ela nunca correspondeu. Conta-lhe tudo e lhe pede dinheiro. Ele recusa porque ela o decepcionara com seu comportamento. Decide então, depois de uma nova e vã tentativa junto do barqueiro atravessar a ponte. O louco a mata.
Desafio proposto:
Qual destes seis personagens por ordem de entrada na história (mulher, marido, amante, louco, barqueiro e amigo), pode ser responsabilizado por esta morte? Classifique-os por ordem crescente de responsabilidade.
Seriados sobre Advogados, Direito e Justiça
SUITS
Suits é um seriado canadense de drama legal criado e escrito por Aaron Korsh. O seriado teve sua estreia em 23 de junho de 2011 na rede de TV a cabo CND e é produzido pela Universal Cable. Suits tem como cenário uma firma de advocacia na cidade de Nova York. A série trata da expulsão do talentoso Mike Ross (Patrick J. Adams) do colégio, que inicialmente trabalha como um advogado associado para Harvey Specter (Gabriel Macht) mesmo nunca tendo frequentado a escola de direito e foca em Harvey e Mike tendo sucesso em diversos casos enquanto mantêm o segredo de Mike.
How to Get Away With Murder
A série se desenvolve ao redor da vida pessoal e profissional de Annalise Keating, uma advogada de defesa criminal proeminente. Também professora de direito na Universidade de Middleton, na Filadélfia, Annalise seleciona cinco de seus melhores alunos para trabalharem com ela em seu escritório: Wes Gibbins, Connor Walsh, Michaela Pratt, Laurel Castillo e Asher Millstone. Em sua vida pessoal, Annalise vive com seu marido Sam Keating, um renomado psicólogo, mas também vive um relacionamento às escondidas com Nate Lahey, um detetive de polícia. Quando sua vida pessoal e profissional começa a entrar em colapso, Annalise e seus alunos se vêem envolvidos, involuntariamente, em uma trama de assassinatos.
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Better Call Saul
Better Call Saul é uma série de televisão norte-americana criada por Vince Gilligan e Peter Gould, sendo um spin-off de Breaking Bad, também criada por Gilligan. Os eventos de Better Call Saul decorrem a partir de 2002 e contam a história de um simples advogado chamado James Morgan "Jimmy" McGill (Bob Odenkirk), seis anos antes de sua aparição em Breaking Bad, mostrando sua trajetória e seus problemas antes de se tornar o infame Saul Goodman. Alguns eventos exibidos em Better Call Saul situam-se depois de Breaking Bad, embora explorados de uma forma extremamente breve.
The Good Wife
A série centra-se em Alicia Florrick (Julianna Margulies), cujo marido Peter Florrick (Chris Noth), um ex-advogado do estado de Condado de Cook, foi preso depois de um escândalo envolvendo sexo com prostitutas e corrupção. Depois de ter passado 13 anos como uma mãe atenciosa e dona-de-casa, Alicia retorna ao seu antigo trabalho como advogada e fica com a responsabilidade de criar os seus dois filhos. A série foi parcialmente inspirado no escândalo de prostituição envolvendo o ex-governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, bem como outros escândalos sexuais proveniente de políticos norte-americanos, particularmente os de John Edwards e Bill Clinton:
SCANDAL - Nos Bastidores do Poder
Olivia Pope, a ex-consultora de comunicações da presidência, dedica sua vida a proteger a imagem pública da elite da nação e garantir que seus segredos nunca venham à tona.
Após deixar a Casa Branca, ela abre sua própria empresa na esperança de iniciar um novo capítulo em sua vida, tanto profissional quanto pessoal. Entretanto, ela parece não conseguir cortar completamente os laços com seu passado. Aos poucos se torna evidente que sua equipe, especializada em corrigir os erros dos outros, não é tão boa assim quando se trata de consertar suas próprias vidas.
Ally McBeal
Ally McBeal (no Brasil, Ally McBeal: Minha Vida de Solteira) foi uma premiada série de televisão estadunidense, produzida pelo canal FOX e por David E. Kelley, que narra as aventuras de uma advogada (Ally McBeal) e seu desejo de encontrar um parceiro ideal para se casar e de se dar bem na vida, profissional e emocionalmente. Toda a trama se desenrola num escritorio de advogacia, em Boston, onde Ally e o resto de seus colegas excêntricos trabalham e vivem situações bastante irreais. Um destaque do seriado é sua trilha sonora composta de músicas de Vonda Shepard, principalmente, com participações de vários grandes nomes, como Barry White, Sting, Elton John, Al Green, Michael Jackson, Mariah Carey, Whitney Houston, Anastacia, Bon Jovi (atuando em muitos episódios), Tina Turner, Barry Manilow, entre outros.
How to Get Away With Murder
A série se desenvolve ao redor da vida pessoal e profissional de Annalise Keating, uma advogada de defesa criminal proeminente. Também professora de direito na Universidade de Middleton, na Filadélfia, Annalise seleciona cinco de seus melhores alunos para trabalharem com ela em seu escritório: Wes Gibbins, Connor Walsh, Michaela Pratt, Laurel Castillo e Asher Millstone. Em sua vida pessoal, Annalise vive com seu marido Sam Keating, um renomado psicólogo, mas também vive um relacionamento às escondidas com Nate Lahey, um detetive de polícia. Quando sua vida pessoal e profissional começa a entrar em colapso, Annalise e seus alunos se vêem envolvidos, involuntariamente, em uma trama de assassinatos.
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Better Call Saul
Better Call Saul é uma série de televisão norte-americana criada por Vince Gilligan e Peter Gould, sendo um spin-off de Breaking Bad, também criada por Gilligan. Os eventos de Better Call Saul decorrem a partir de 2002 e contam a história de um simples advogado chamado James Morgan "Jimmy" McGill (Bob Odenkirk), seis anos antes de sua aparição em Breaking Bad, mostrando sua trajetória e seus problemas antes de se tornar o infame Saul Goodman. Alguns eventos exibidos em Better Call Saul situam-se depois de Breaking Bad, embora explorados de uma forma extremamente breve.
The Good Wife
A série centra-se em Alicia Florrick (Julianna Margulies), cujo marido Peter Florrick (Chris Noth), um ex-advogado do estado de Condado de Cook, foi preso depois de um escândalo envolvendo sexo com prostitutas e corrupção. Depois de ter passado 13 anos como uma mãe atenciosa e dona-de-casa, Alicia retorna ao seu antigo trabalho como advogada e fica com a responsabilidade de criar os seus dois filhos. A série foi parcialmente inspirado no escândalo de prostituição envolvendo o ex-governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, bem como outros escândalos sexuais proveniente de políticos norte-americanos, particularmente os de John Edwards e Bill Clinton:
SCANDAL - Nos Bastidores do Poder
Olivia Pope, a ex-consultora de comunicações da presidência, dedica sua vida a proteger a imagem pública da elite da nação e garantir que seus segredos nunca venham à tona.
Após deixar a Casa Branca, ela abre sua própria empresa na esperança de iniciar um novo capítulo em sua vida, tanto profissional quanto pessoal. Entretanto, ela parece não conseguir cortar completamente os laços com seu passado. Aos poucos se torna evidente que sua equipe, especializada em corrigir os erros dos outros, não é tão boa assim quando se trata de consertar suas próprias vidas.
Ally McBeal
Ally McBeal (no Brasil, Ally McBeal: Minha Vida de Solteira) foi uma premiada série de televisão estadunidense, produzida pelo canal FOX e por David E. Kelley, que narra as aventuras de uma advogada (Ally McBeal) e seu desejo de encontrar um parceiro ideal para se casar e de se dar bem na vida, profissional e emocionalmente. Toda a trama se desenrola num escritorio de advogacia, em Boston, onde Ally e o resto de seus colegas excêntricos trabalham e vivem situações bastante irreais. Um destaque do seriado é sua trilha sonora composta de músicas de Vonda Shepard, principalmente, com participações de vários grandes nomes, como Barry White, Sting, Elton John, Al Green, Michael Jackson, Mariah Carey, Whitney Houston, Anastacia, Bon Jovi (atuando em muitos episódios), Tina Turner, Barry Manilow, entre outros.
Pai contra mãe, de Machado de Assis
PAI CONTRA MÃE
A abolição da escravidão extinguiu profissões e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Sem o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede de álcool, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, — ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoitasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, — em família, Candinho, — é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta anos. Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi — para lembrar o primeiro ofício do namorado, — tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.
— Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
— Não, defunto não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.
— Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
— Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.
Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo.
Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.
— Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
— Vocês verão a triste vida, suspirava ela.
— Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.
— Nascem, e acham sempre alguma coisa certa que comer, ainda que pouco...
— Certa como?
— Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
— A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau...
— Bem sei, mas somos três.
— Seremos quatro.
— Não é a mesma coisa.
— Que quer então que eu faça, além do que faço?
— Alguma coisa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém.
— Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.
— É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra coisa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
— Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio.
— Titia não fala por mal, Candinho.
— Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, — crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dois foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
— Quem é? perguntou o marido.
— Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.
— Não é preciso...
— Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
— Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise, começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. “Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos.” Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo.
— Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
— Mas...
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.
— Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
— Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!
— Siga! repetiu Cândido Neves.
— Me solte!
— Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, — coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites.
— Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes coisas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
— Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.
— É ela mesma.
— Meu senhor!
— Anda, entra...
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
— Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.
domingo, 23 de julho de 2017
Frases de pensadores sobre justiça, juiz, advogado, lei, conselho e experiências
Advocacia é a maneira legal
de burlar a justiça.
(Autor desconhecido)
O bom do Juízo Final
é que será sem advogados.
(Sofocleto)
Um júri é composto de doze pessoas escolhidas
para decidir quem tem o melhor advogado.
(Robert Frost, J. Garland Pollard)
Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis.
Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.
(Bertolt Brecht)
Infeliz a geração cujos juízes merecem ser julgados.
(Talmud)
Não litigues contra um juiz, porque decidirão a favor dele.
(Eclesiástico, 8,14)
Não é fácil julgar contra os próprios interesses.
(Balmes)
O juízo dos homens é inexorável em relação aos outros,
sobre a ação que cada um deles está pronto a praticar.
O mundo não nos julga pelo que somos,
mas pelo que parecemos ser.
(A. Delpit)
Para os amigos, tudo. Para os indiferentes, a lei.
Para os inimigos, a justiça morosa e corrupta.
É melhor escolher os culpados do que procurá-los.
(Marcel Pagnol)
O mais corrupto dos Estados tem o maior número de leis.
(Tácito)
Quanto mais corrompido o Estado, mais leis.
(Tácito)
Quanto mais leis, mais ladrões.
(Provérbio chinês)
Leis existem para dificultar certas coisas,
e a propina para facilitá-las.
Uma coisa é estar dentro da lei, outra é estar sob a lei.
Os que estão dentro da lei são livres, os outros são escravos.
(S. Agostinho)
Se a população soubesse como são feitas as leis e as salsichas,
ninguém mais dormiria sossegado. (Bismarck)
As leis, quando violadas, não gritam.
(Talleyrand)
A lei é como uma cerca: quando é forte, a gente passa por baixo;
quando é fraca, a gente passa por cima.
(Heráclito)
Faça agora. Amanhã pode aparecer uma lei proibindo.
(Lawrence J. Peter)
Por que cometer erros antigos,
se há tantos erros novos a escolher?
(Bertrand Russell)
O pior dos erros é acertar sozinho contra muita gente.
(Agripino Grieco)
Os fracos preferem acusar os acontecimentos
a reconhecer os seus erros.
Não se deve ter vergonha de reconhecer um erro,
pois assim se demonstra ser mais sábio hoje do que ontem.
(Jonathan Swift)
Admita seus erros antes que alguém os exagere.
(Andrew V. Mason)
Não existe maneira certa de fazer uma coisa errada.
(Kenneth Blanchard)
Errar é humano. Botar a culpa nos outros, também.
(Millôr Fernandes)
Estou aprendendo tanto com meus erros,
que estou pensando em cometer mais alguns.
(Ashleigh Brilliant)
Aprenda com os erros dos seus pais:
use o controle da natalidade.
Aprenda com os erros dos outros.
Assim você pode cometê-los todos.
(Herbert Goldberg)
Um erro econômico antigo só pode s
er corrigido com dois erros econômicos novos.
Aquele que tentou e não conseguiu é superior
àquele que nada tentou.
(Bud Wilkinson)
Experiência é algo maravilhoso.
Permite reconhecer um erro cada vez que o cometemos.
(Franklin P. Jones)
Experiência é algo que você não obtém até precisar dela.
(Steven Wright)
Experiência é um bilhete de loteria comprado depois do sorteio.
(Gabriela Mistral)
Experiência é um professor implacável. Primeiro ele dá o teste, depois a lição.
Bom senso é o que há de mais bem distribuído no mundo,
pois cada um pensa estar bem provido dele.
(René Descartes)
Se fôssemos confiar apenas no bom senso,
o mundo ainda seria plano.
(Claire de Lamirande)
O bom senso nunca terá heróis.
(Armand Salacrou)
Nada é tão perigoso como o bom conselho
acompanhado de um mau exemplo.
(Mme. de Sablé)
Apraz aos velhos dar bons conselhos, como consolo
por já não estarem em condição de dar maus exemplos.
Quem pede conselhos quer aprovação.
(G.C. Colton)
Conselho de raposa, morte de galinhas.
Se queremos abolir a pena de morte,
que os assassinos tomem a iniciativa.
(Alphonse Karr)
Os homens não são enforcados porque roubaram cavalos,
mas para que cavalos não sejam mais roubados.
(G. Saville)
Abuso é um direito exercido por outrem.
(Pierre la Mazière)
Presume-se que um homem é culpado,
até ele provar que é influente.
(Lawrence J. Peter)
Acordo é uma combinação em que um cede, fingindo que não sabe.
Mais vale um mau acordo que uma boa demanda.
Os provérbios são particularmente úteis nos casos em que
não temos nada que nos justifique.
(Pouchkine)
Um provérbio chinês recomenda: quando você não tem nada para dizer,
diga um provérbio chinês.
Não gosto dos provérbios, pois são arreios para qualquer cavalo.
Não há um que não tenha o seu contrário, e qualquer conduta que se tenha,
há um para apoiá-la.
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